Eternas reticências...

Nome:
Local: Aracaju, Sergipe, Brazil

Pessoa em constante processo de autoconhecimento

19.8.04

Mais um momento

O sabor do beijo era inconfundível. O toque da pele, singular. Cada linha da mão era sentida no corpo macio e exaltado de prazer. A respiração cada vez mais intensa... Olhares e expressões demonstrando o puro prazer que estava sentindo.
A relação parecia ser única. Aquele momento, sem precedentes. Sentia que muito do que esperara na vida estava ali, à sua frente, pronto para ser apreciado e vivido.
Mas a dúvida ainda corroía, angustiava, consumia. Seria aquilo tudo passageiro? Mais uma experiência no meio de tantas? Mais uma frustação? Mais um engano?...???
Pela primeira vez, de verdade, a insegurança era constante em suas atitudes e pensamentos. Não conseguia evitar esses sentimentos. Não raciocinava como costumava fazer.
Apesar de tanto se questionar, vivia um dos melhores momentos da vida. Estava feliz. Ou pelo menos achava que sim.

17.8.04

Mudança

Não queria falar. Por alguns minutos não suportava palavras, sons, qualquer tipo de pertubação sonora. Não estava mais aturando ter que responder a perguntas idiotas, comentários impertinentes, falta de inteligência.
Estava a ponto de gritar, sair desesperadamente, de uma forma louca a qual teriam tanto receio que não se aproximariam jamais. Aí sim estaria feliz, no seu mundo, sem ter que dar sinais.
Mas não seria possível. Ainda teria que agüentar tudo aquilo por tanto tempo mais que dava vontade de desistir, jogar a toalha, pôr um ponto final e definitivo. Mas havia algo, uma remota esperança de encarar todo aquele sacrifício com bom-humor. Humor sarcástico, claro!, mas humor.
Passaria a ver que tudo não era nada além de uma tragi-comédia bem ao gosto de Nelson Rodrigues. Riria das situações. Seria diagnosticada esquizofrenia pelos idiotas que estavam à sua volta, mas não se importaria. Daria mais e mais risadas da mediocridade daqueles seres ditos humanos.
Nossa! Como sua vida passara a ser prazerosa a partir de então. Aprendera a viver. Agora, alguém bem-humorado que sabia, no seu íntimo, o que o agradava e o fazia suportar o que antes não concebia.
Não mais alguém alvo de críticas pelo seu inconstante "humor", mas sim aquele que era a surpresa mais intrigante que poderiam ter conhecimento. Outra pessoa tomara lugar para eles. Outra pessoa...obviamente para os que não se movem.. os que não vêem além... para os medíocres! Somente para eles!

3.8.04

Controle

Cresceu imaginando uma vida de sucessos e prazeres. Era isso que almejava acima de tudo: ser dono de si e, se possível, do mundo. Não no sentido monopolizador, ruim. Mas sim naquele em que uma pessoa só se imagina na situação mais confortável, 'por cima da carne seca', como se costuma dizer...
Dava importância a coisas, fatos, situações, opiniões que para ele eram corretos, incontestáveis. Quanto a pessoas... Isso era o que mais o atraía. Era o fato de sempre as agradar que o mantinha sedento, viçoso... Desejava ser o centro das atenções, alvo de admirações e comentários.
Era um vício. Exatamente. Era viciado em ser o vício. Em querer ser o vício. Em ser necessário. Ser essencial, vital.
Nada mais natural para uma pessoa que sempre foi o pato feio da família. O filho preterido e não desejado. A criança tímida e mal-humorada, sem amigos e sem simpatia.
Crescido, um jovem que desabrocharia, que parecia criar uma auto-confiança surpreendente. Aquele em que todos se espelhariam. Perfeito, charmoso, inteligente, sagaz. Apto a grandes conquistas... Grandes empreendimentos...
Mas para ele tudo o que possuía e os caminhos que galgava era pouco, limitado. Queria mais. Sempre mais. O material já era segundo plano em sua vida. O que o interessava era o poder que era capaz de exercer sobre as pessoas. Aquilo que conseguia com as palavras era o seu tesouro. A veneração. O fascínio. A submissão.
Passou a viver para isso. O temor de um dia ser controlado novamente o perturbava, o enlouquecia. Não vivia mais a própria vida. Vivia a dos outros, para os outros. As idéias não seguiam uma sequência lógica, as atitudes seguiam o mesmo rumo.
Vozes, sons, imagens estranhas o acompanhavam. Pupilas dilatadas, mãos trêmulas, lábios ressecados. Garganta áspera, coração descompassado, sudorese acentuada...
Finalmente... perdera o controle da situação. Perdera o auto-controle.